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Introdução / Anjos da Guarda / Cinco anos de histórias / Pulp Fiction: Overdose - Ficção e realidade

Anjos da guarda

Pulp Fiction: Overdose - Ficção e realidade

Lance: Vais dar-lhe uma injecção de adrenalina directamente no coração!
Vincent: E o que vai acontecer?
Lance: Até eu estou curioso para saber!

As situações com vítimas de overdose de drogas duras são, nos dias de hoje, praticamente banais. No cinema, o filme “Pulp Fiction” (1994), obra-prima de Quentin Tarantino apresenta um caso de overdose, solucionado de uma forma, no mínimo, original, que chega a chocar o espectador. Mia Wallace (a actriz Uma Thurman) é a vitima e o socorrista de serviço John Travolta (actor que encarna a personagem Vincent Vega). O método utilizado – uma injecção intra-cardíaca de adrenalina – proposto por Lance (Eric Stoltz), ele próprio consumidor de substâncias ilícitas, leva a que Mia recupere os sentidos imediatamente.
Quisemos saber se a cena do filme encontra algum paralelo nas situações vividas, dia-a-dia, pelos profissionais de serviço à VMER ou se estamos perante pura ficção. Segue-se a explicação dos médicos Jorge Mesquita e Amélia Pereira:

“Quando deparamos com uma situação de overdose, o primeiro passo será garantir a oxigenação da vítima, já que uma paragem respiratória poderá levar à paragem cardíaca e morte”, avança o clínico. Amélia Pereira adianta: “Sempre que existe paragem cardíaca, há paragem respiratória, pode é existir paragem respiratória sem existir paragem cardíaca”, explica.
No filme, a vítima recupera da “overdose” com recurso a um injecção intra-cardíaca de adrenalina. Embora a adrenalina, definida por Jorge Mesquita como “uma droga de emergência”, seja efectivamente utilizada em situações de paragem cardíaca, ficam-se por aí as semelhanças com o método e resultado observados em “Pulp Fiction”.
É que a adrenalina, só por si, não recupera uma vítima de overdose. E, igualmente, a forma de a utilizar – na fita, a injecção penetra o coração como se de uma facada se tratasse – não encontra correspondência com a realidade, embora Jorge Mesquita afirme “que numa situação muito extrema, em caso de falta de circulação sanguínea, possa ser de ponderar uma injecção intra-cardíaca para recuperar o miocárdio”.
No dia-a-dia dos médicos da VMER, a utilização de adrenalina para “reverter” uma paragem cardíaca faz-se de duas maneiras: ou por via endovenosa - “geralmente utiliza-se uma veia periférica”, diz Jorge Mesquita – ou via traqueal, acompanhada de soro.
Quanto à imediata recuperação da vítima no filme – a personagem Mia Wallace dá um salto aquando da injecção, indo encostar-se a um sofá com a seringa espetada no peito, perante a surpresa dos restantes protagonistas – Amélia Pereira resume, meio divertida, meio incrédula: “Dos casos de paragem cardíaca que conheço, nunca vi nenhum levantar-se, depois de reverter”, dispara. “A recuperação é progressiva, está inanimado, começa a recuperar lentamente”, acrescenta Jorge Mesquita.
Se recuperação rápida, depois de paragem cardíaca, é pelo aqui exposto uma história só possível nos filmes, o que acontece no caso de uma overdose, por exemplo, de heroína?
Na assistência a uma vítima de overdose, os médicos utilizam uma droga chamada naloxona, que funciona como antídoto. “Vê-se o pulso, às vezes pode não ter pulso, mas não quer dizer que esteja em paragem cardíaca, há trabalho cardíaco sem pulso periférico”, refere Jorge Mesquita. Garantida a ventilação da vítima, “logo que haja pulso periférico, a naloxona é dada de imediato, por via endovenosa e em certos casos, o paciente recupera de imediato em menos de cinco minutos, como se não fosse nada com ele”, adianta.
“É extraordinário, em termos de sucesso e eficácia”, acrescenta Jorge Mesquita.
Amélia Pereira destaca as qualidades da naloxona “bem absorvida pelo organismo”, reforçando que é possível “reverter a situação só com uma ampola, a pessoa está com um aspecto completamente negro mas a naloxona faz com que os centros respiratórios se libertem da heroína e a recuperação é muito rápida”, conclui.


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